ACEITANDO-SE PARA MUDAR

19/03/2025 12:53

 

ACEITANDO-SE PARA MUDAR

Na visão psicanalítica

Na psicanálise, mudar não significa “corrigir defeitos”, mas transformar a relação que o sujeito tem consigo mesmo.
E essa transformação só começa quando a pessoa consegue aceitar-se — não como resignação, mas como reconhecimento.

1. O que é aceitar-se na psicanálise?

Aceitar-se é olhar para si sem tanta censura, permitindo que sentimentos, desejos e fragilidades venham à tona.
É suspender, mesmo que por instantes, a voz interna que acusa e proíbe.

Significa dizer:
Isso faz parte de mim. Eu posso olhar para isso sem me destruir.

O que é reconhecido pode ser transformado.
O que é negado, retorna como sintoma.


2. Por que aceitar-se é tão difícil?

A psicanálise mostra que todos carregamos:

  • um Supereu crítico, que exige perfeição;

  • partes reprimidas da personalidade;

  • desejos que nos assustam;

  • feridas antigas que gostaríamos de esquecer.

Aceitar-se implica dar espaço para tudo isso — e isso causa angústia.
Por isso, muitas pessoas tentam mudar sem antes se ver, e acabam repetindo padrões.


3. Sem aceitação, não há mudança real

Quando o sujeito não se aceita, ele tenta mudar para:

  • agradar,

  • ser amado,

  • não perder alguém,

  • corresponder a expectativas,

  • fugir da culpa ou da vergonha.

Mas mudanças motivadas pela culpa são instáveis.
Mudar para não ser rejeitado não é mudança — é obediência.

A verdadeira mudança exige apropriação do próprio desejo, não adaptação ao desejo do outro.


4. Aceitar-se é integrar partes negadas

A psicanálise entende que somos feitos de partes que tentamos esconder:

  • impulsos,

  • traços infantis,

  • contradições,

  • medos,

  • vulnerabilidades.

Ao acolher essas partes, o sujeito fica menos dividido internamente.
E quanto menos dividido, mais livre para transformar hábitos, escolhas e caminhos.


5. A mudança como consequência, não como meta

Na visão psicanalítica:

  • não mudamos porque “decidimos”;

  • mudamos porque algo dentro de nós se reorganiza.

A aceitação produz essa reorganização.
Dá força ao Eu, reduz a tirania do Supereu e permite que o sujeito aja a partir do seu próprio desejo — não de suas defesas.


6. Aceitar-se é um ato de coragem

É encarar o que antes era evitado.
É reconhecer que há limites e, justamente por reconhecê-los, torná-los transformáveis.

A mudança nasce quando o sujeito se permite existir como é —
e, a partir daí, tornar-se quem pode ser.